
Tinha acabado de se lembrar que em Tarifa morava uma velha capaz de interpretar sonhos. E ele tinha tido um sonho repetido aquela noite.
A velha conduziu o rapaz até um quarto no fundo da casa, separado da sala por uma cortina feita de tiras de plástico colorido. Lá dentro tinha uma mesa, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, e duas cadeiras.
A velha sentou-se e pediu que ele fizesse o mesmo. Depois segurou as duas mãos do rapaz e rezou baixo.
Parecia uma reza cigana. O rapaz já havia encontrado muitos ciganos pelo caminho; eles viajavam e entretanto não cuidavam de ovelhas.
As pessoas diziam que a vida de um cigano era sempre enganar aos outros. Diziam também que eles tinham pacto com demónios, e que raptavam crianças para servirem de escravas em seus misteriosos acampamentos.
Quando era pequeno, o rapaz sempre tinha morrido de medo de ser raptado pelos ciganos, e este temor antigo voltou enquanto a velha segurava suas mãos.
«Mas existe a imagem do Sagrado Coração de Jesus», pensou ele, procurando ficar mais calmo. Não queria que sua mão começasse a tremer e a velha percebesse seu medo. Rezou um pai-nosso em silêncio.
— Que interessante — disse a velha, sem tirar os olhos da mão do rapaz. E voltou a ficar quieta.
O rapaz estava ficando nervoso. Suas mãos começaram involuntariamente a tremer, e a velha percebeu. Ele puxou as mãos rapidamente.
— Não vim aqui para ler as mãos — disse, já arrependido de ter entrado naquela casa. Pensou por um momento que era melhor pagar a consulta e ir-se embora sem saber de nada. Estava dando importância demais a um sonho repetido.
— Você veio saber de sonhos — respondeu a velha. — E os sonhos são a linguagem de Deus. Quando ele fala a linguagem do mundo, eu posso interpretar. Mas se ele falar a linguagem de sua alma, só você pode entender.
