
Sob circunstâncias normais, tudo seria assim.
Mas naquele exato momento Harlan estava com um péssimo ânimo para pensar em qualquer coisa, senão no fato de que seus documentos pesavam em seu bolso e seu plano pesava em seu coração. Estava um pouco assustado, um pouco tenso, um pouco confuso.
Foram suas mãos, atuando por si mesmas, que trouxeram a caldeira para o lugar adequado no século correto.
Era estranho que um Técnico sentisse tensão ou nervosismo por alguma coisa. Foi o que disse o Educador Yarrow certa vez:
“Acima de tudo, um Técnico deve ser imparcial. A Mudança de Realidade que ele inicia pode mudar as vidas de cerca de cinqüenta bilhões de pessoas. Um milhão ou mais delas poderiam ser tão drasticamente afetadas, a ponto de serem consideradas novos indivíduos. Sob estas condições, uma atitude emocional é uma desvantagem evidente.”
Harlan tirou da mente a lembrança da voz seca de seu professor, com um quase selvagem chacoalhar de cabeça. Naqueles dias, não tinha nunca imaginado que ele tivesse o peculiar talento para aquela mesma posição. Mas a emoção tinha-o atacado, afinal de contas. Não pelos cinqüenta bilhões de pessoas. O que significava para ele, no Tempo, cinqüenta bilhões de pessoas? Havia apenas uma. Uma só pessoa.
Apercebeu-se de que a caldeira estava imóvel e, com uma pequena pausa para coordenar seus pensamentos e situar-se dentro da estrutura mental impessoal e fria que um Técnico deve ter, saiu. A caldeira de que saiu, naturalmente, não era a mesma que aquela em que havia embarcado, no sentido de que não era composta dos mesmos átomos. Não se preocupou com isso mais do que um Eterno se preocuparia. Preocupar-se com a mística da viagem no Tempo, antes que com o simples fato dela existir, era característica de um Aprendiz, de um recém-chegado à Eternidade.
Deteve-se novamente diante da cortina ilimitadamente fina de não-Espaço e não-Tempo que o separava, de um lado, da Eternidade, e do outro, do Tempo normal.
