Mas- matéria consistindo unicamente de espelhos!

Esta foi sua primeira impressão do século 2456. Qualquer superfície brilhava e refletia a luz. Em todo lugar estava a ilusão de completa lisura; o efeito de uma película molecular. E em seu sempre repetido reflexo, no do Sociólogo Voy, no de qualquer coisa que ele pudesse ver, em fragmentos e inteiro, em todos os ângulos, havia confusão. Extravagante confusão e náusea!

— Sinto muito — disse Voy — é o costume do século, e o Setor encarregado dele acha de boa praxe adotar os costumes onde forem praticáveis. Você se acostumará a isso depois de algum tempo.

Voy caminhou rapidamente sobre os pés de um outro Voy de cabeça para baixo, que o imitou passo por passo. Adiantou-se para acionar o indicador de contato-cabelo e baixou-o para o ponto de origem, numa escala espiral.

Foram-se os reflexos; desvaneceu-se a estranha luz. Harlan sentiu-se novamente em seu mundo.

— Se você vier comigo agora… — disse Voy. Harlan seguiu por um corredor vazio que, como ele sabia, devia ter sido, momentos atrás, uma confusão de luz artificial e reflexos, subindo por uma rampa, atravessando uma ante-sala e entrando num escritório.

Durante toda a pequena jornada, nenhum ser humano fora visto. Harlan estava tão acostumado a isso e aceitava tanto o fato, que teria ficado surpreso, quase chocado, se a silhueta de uma figura humana tivesse atingido seus olhos. Não havia dúvida de que se havia espalhado a notícia de que um Técnico estava vindo por ali. Mesmo Voy conservou distância, e quando, acidentalmente, a mão de Harlan esbarrou em sua luva, Voy se retraiu com visível espanto.

Harlan estava vagamente surpreso com o toque de amargura que sentiu com tudo isso. Tinha pensado que a concha que havia criado em volta de seu espírito fosse mais grossa, mais suficientemente insensível do que aquilo. Se estava enganado, se sua casca tinha ficado mais fina, poderia haver somente uma razão para isso.



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