Como sempre que pensava na Rússia, lembrou-se de Konrad e daquela manhã da primavera cataclísmica de 1945. Mais de trinta anos se tinham passado, mas a lembrança daqueles últimos dias, em que o Reich se desmoronava sob as ondas do Leste e do Oeste, nunca se apagara. Parecia-lhe ver ainda os cansados olhos azuis de Konrad e a barba dourada que lhe crescia no queixo, ao se despedirem, com um aperto de mão, naquela massacrada aldeia da Prússia, entre fileiras intermináveis de refugiados. Fora uma despedida que simbolizara tudo o que desde então tinha acontecido com o mundo — a ruptura entre Oriente e Ocidente —, pois Konrad escolhera o caminho de Moscou. Reinhold julgara-o um idiota, mas agora não estava tão certo disso.

Durante trinta anos, partira do princípio de que Konrad morrera. Havia apenas uma semana que o Coronel Sand-meyer, do serviço secreto técnico, lhe dera a notícia. Não gostava de Sandmeyer e tinha a certeza de que o sentimento era recíproco. Mas nenhum dos dois deixava que isso interferisse no trabalho.

— Sr. Hoffmann — tinha dito o coronel, num tom expressamente oficial —, acabei de receber informações alarmantes de Washington. Trata-se, naturalmente, de informações secretas, mas resolvemos confiá-las à nossa equipe de engenheiros, para melhor fazê-los compreender a necessidade de acelerar os trabalhos. — Fizera uma pausa de efeito, que não impressionara Reinhold. A verdade é que ele já sabia o que viria a seguir.

— Os russos estão quase nos igualando. Têm um tipo de propulsão atômica que talvez seja ainda mais eficiente do que a nossa, e estão construindo uma nave nas margens do lago Baikal. Não sabemos em que ponto estão, mas o serviço secreto acha que a nave pode ser lançada ainda este ano. E o senhor sabe o que isso significa.

Sim, pensou Reinhold, eu sei. A corrida começou — e talvez não a vençamos.

— Sabe quem está chefiando a equipe deles? — perguntara, sem realmente esperar uma resposta. Para surpresa sua, o Coronel Sandmeyer estendera-lhe uma folha datilografada, e, logo em cima, ele deparara com o nome: Konrad Schneider.



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