Duval riu.

— Não é tão perigoso quanto parece. Tudo o que é preciso fazer é encostar o bocal na tela e apertar o gatilho. Produz um raio muito poderoso, que dura dez segundos, tempo de sobra para fazê-lo girar em volta da sala e obter uma boa vista. A luz atravessará a tela, iluminando seu amigo.

— Não vai machucar Karellen?

— Não, se você apontar para baixo e só depois dirigir o bocal para cima. Isso dará tempo de ele adaptar os olhos, imagino que tenha reflexos como os nossos e não vamos querer cegá-lo.

Stormgren olhou para a arma com ar de dúvida e sopesou-a na mão. Nas últimas semanas, a consciência vinha-lhe pesando. Karellen sempre o tratara com inconfundível afeto, apesar de sua ocasional franqueza e, agora que a colaboração entre ambos estava chegando ao fim, ele não queria que nada viesse estragar esse relacionamento. Mas o supervisor fora devidamente avisado e Stormgren estava convencido de que, se pudesse escolher, Karellen havia muito se teria mostrado. Agora, a decisão caberia a ele: quando o derradeiro encontro dos dois terminasse, Stormgren olharia para o rosto de Karellen.

Isto é, se Karellen tivesse mesmo um rosto.

O nervosismo que Stormgren a princípio sentira há muito havia passado. Karellen estava praticamente falando sozinho, expressando-se por meio de sentenças complicadas, o que de vez em quando costumava fazer. Outrora, Stormgren tinha achado aquilo o mais maravilhoso e surpreendente dom de Karellen. Agora, já não lhe parecia assim tão maravilhoso, pois sabia que, como acontecia com a maior parte dos dotes mentais do supervisor, era o resultado do seu poder intelectual, e não de qualquer talento especial.

Karellen tinha tempo para se expressar de forma literária, quando diminuía o ritmo de seus pensamentos, de modo a poder acompanhar a cadência da fala humana.



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