Resolveram o problema adotando práticas nada recomendáveis para um asilo psiquiátrico, e Villete passou a simbolizar — para a jovem nação que acabara de sair de um comunismo tolerante — o que havia de pior no capitalismo: bastava pagar para se conseguir uma vaga.

Muitas pessoas, quando queriam livrar-se de algum membro da familia por causa de discussões sobre herança (ou comportamento inconveniente), gastavam uma fortuna — e conseguiam um atestado médico que permitia a internação dos filhos ou pais criadores de problemas. Outros, para fugir de dividas, ou justificar certas atitudes que podiam resultar em longos termos de prisão, passavam algum tempo no asilo e saiam livres de qualquer cobrança ou processo judicial.

Villete, o lugar de onde ninguém jamais havia fugido. Que misturava os verdadeiros loucos — enviados ali pela justiça, ou por outros hospitais — com aqueles que eram acusados de loucura, ou fingiam insanidade. O resultado era uma verdadeira confusão, e a imprensa a toda hora publicava histórias de maus-tratos e abusos, embora jamais tivesse permissão de entrar e ver o que estava acontecendo. O governo investigava as denúncias, não arranjava provas, os acionistas ameaçavam espalhar que era dificil fazer investimentos externos ali, e a instituição conseguia manter-se de pé, cada vez mais forte.

— Minha tia suicidou-se há alguns meses — continuou a voz feminina. — Ela passou quase oito anos sem vontade de sair do quarto, comendo, engordando, fumando, tomando calmantes, e dormindo a maior parte do tempo. Tinha duas filhas e um marido que a amava.

Veronika tentou mover sua cabeça na direção da voz, mas era impossível.

— Só a vi reagir uma única vez: quando o marido arranjou uma amante. Então ela fez escândalos, perdeu alguns quilos, quebrou copos e — por semanas inteiras — não deixava a vizinhança dormir com seus gritos. Por mais absurdo que pareça, acho que foi sua época mais feliz: estava lutando por alguma coisa, sentia-se viva e capaz de reagir ao desafio que se colocava diante dela.



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