
«Você não sabe o que é um louco?»
Por um instante, ela pensou em não responder: não queria fazer amigos, desenvolver círculos sociais, arranjar aliados para uma grande sublevação em massa. Tinha apenas uma ideia fixa: morte. Se fosse impossível fugir, daria um jeito de se matar ali mesmo, o quanto antes possível.
Mas a mulher repetiu a mesma pergunta que ela fizera às vigilante.
— Você não sabe o que é um louco?
— Quem é você?
— Meu nome é Zedka. Vá até sua cama. Depois, quando a vigilante achar que você já está deitada , arraste-se pelo chão e venha até aqui.
Veronika voltou ao seu lugar, e esperou que a vigilante voltasse a se concentrar no livro. O que era um louco? Não tinha a menor ideia, porque esta palavra era empregada de uma maneira completamente anárquica: diziam, por exemplo, que certos esportistas eram loucos por desejarem quebrar recordes. Ou que os artistas eram loucos, pois viviam de uma maneira insegura, inesperada, diferente de todos os «normais». Por outro lado, Veronika já vira muita gente andando nas ruas de Lubljana, mal agasalhados durante o inverno, pregando o fim do mundo, empurrando carrinhos de supermercado cheio de sacolas e trapos.
Estava sem sono. Segundo o médico, dormira quase uma semana, tempo demais para quem estava acostumado com uma vida sem grandes emoções, mas com horários rigidos de descanso. O que era um louco? Talvez fosse melhor perguntar para um deles.
Veronika agachou-se, tirou a agulha do seu braço, e foi até onde estava Zedka, tentando não dar importância ao estômago que começava a dar voltas; não sabia se o enjoo era resultado do seu coração enfraquecido, ou do esforço que estava fazendo.
— Não sei o que é um louco — sussurrou Veronika. — Mas eu não sou. Sou uma suicida frustrada.
— Louco é quem vive em seu mundo. Como os
esquizofrênicos, os psicopatas, os maníacos. Ou seja, pessoas que são diferentes das outras.
