
Jeserac, contudo, parecia dominar a situação. Lançou um olhar interrogativo a Eriston e Etania e, satisfeito com o fato de não terem mais o que dizer, lançou-se à arenga por cuja oportunidade esperava há tantos anos.
— Alvin — começou —, por vinte anos você foi meu pupilo, e eu fiz o melhor que pude para lhe ensinar as maneiras da cidade e conduzi-lo à herança que lhe pertence. Você me fez muitas perguntas, não foi a todas que pude responder. Você ainda não estava pronto para saber umas tantas coisas, outras, eu mesmo desconhecia. Agora, sua infância terminou, embora a juventude mal tenha começado. Ainda é meu dever guiá-lo, no caso de você necessitar de ajuda. Dentro de duzentos anos, Alvin, você começará a conhecer alguma coisa dessa cidade, bem como um pouco de sua história. Eu mesmo, que já me aproximo do fim da vida, só vi menos de um quarto de Diaspar e talvez menos de uma milésima parte de seus tesouros.
Até agora, Alvin nada tinha ouvido de novo, não havia, porém, como apressar Jeserac. O ancião olhou-o resolutamente através do golfo dos séculos, enquanto suas palavras caíam com o peso da sabedoria incomensurável adquirida durante uma vida de longo contato diário com homens e máquinas.
— Diga-me uma coisa, Alvin. Porventura já se perguntou onde você estava antes de ter nascido, antes de encontrar-se diante de Etania e Eriston, na Casa da Criação?
— Creio que estava no nada. Talvez não passasse de uma matriz no cérebro da cidade, esperando o momento de ser criado. Alguma coisa assim.
