
Terminei por convencer-me, como o desejava minha mãe, de que eu possuía na minha beleza um bom capital, que um dia poderia render lucros pingues e seguros.
Nessa época da minha vida eu pensava, no entanto, em me casar. Os meus sentidos ainda não tinham acordado e, pondo de lado a vaidade, os homens que olhavam para mim enquanto posava não me provocavam qualquer sentimento. Entregava pontualmente a minha mãe todo o dinheiro que me pagavam, e quando não tinha trabalho ficava com ela em casa, ajudando-a a cortar e a coser as camisas. Este era o nosso meio de existência desde a morte de meu pai, que tinha sido ferroviário. Vivíamos num pequeno apartamento situado no segundo andar de uma pobre casa, construída havia cinquenta anos para o pessoal dos caminhos de ferro, numa rua da periferia da cidade. De um lado havia uma fileira de construções do mesmo tipo, com dois andares, uma fachada de tijolos sem reboco, doze janelas — seis em cada andar — e em baixo uma porta central. Do outro lado estendiam-se as antigas muralhas da cidade, que neste local se mantinham de pé, cobertas de heras e trepadeiras. Uma porta rasgava-se nessas muralhas, próximo da nossa casa. Perto dessa porta havia uma espécie de Luna-Parque, sempre iluminado e com música durante o tempo seco. Da minha janela eu podia ver grinaldas de lâmpadas multicores, tectos dos quais se erguiam pequenas bandeiras e pendões e a multidão que se comprimia à entrada, debaixo dos enormes plátanos que davam sombra a esse lado da rua. A música ouvia-se distintamente em nossa casa.
