
Era uma experiência ousada, totalmente inconcebível antes da segunda metade do século XX. Uma vez detectado o neutrino, era fácil perceber que a humanidade logo teria uma nova janela para o universo. Uma coisa tão penetrante, que passava através de um planeta com a facilidade da luz atravessando uma placa de vidro, podia ser usada para olhar no coração dos sóis.
Especialmente o Sol. Os astrônomos acreditavam compreender as reações que moviam a fornalha solar, da qual toda a vida na Terra dependia, em última análise. Nas enormes pressões e temperaturas que corriam no núcleo do Sol, o hidrogênio se fundia em hélio numa série de reações que liberavam vasta quantidade de energia. E, incidentalmente, neutrinos como subproduto. Como os trilhões de toneladas de matéria em seu caminho não constituíam maior obstáculo do que um fio de fumaça, estes neutrinos solares fugiam de seu berço à velocidade da luz. Apenas dois segundos depois eles emergiam no espaço e se dispersavam no universo. E por mais planetas ou estrelas que encontrassem, a maioria ainda teria escapado à captura por qualquer fantasma pouco substancial de matéria „sólida”, quando o próprio Tempo chegasse ao seu final.
Oito minutos depois de deixarem o Sol, uma minúscula fração da torrente solar atravessou a Terra e uma fração ainda menor foi interceptada pelos cientistas no Colorado. Eles tinham enterrado seu equipamento a mais de um quilômetro de profundidade, de modo que todas as formas de radiação, com poder inferior de penetração, seriam filtradas e poderiam prender os raros e genuínos mensageiros do interior do Sol. Contando os neutrinos capturados, eles esperavam estudar em detalhes as condições de um local que, como qualquer filósofo teria provado, estava para sempre barrado ao conhecimento ou à observação humana. O experimento funcionou e os neutrinos solares foram detectados.
Entretanto eles eram muito poucos. Devia ter havido três ou quatro vezes mais do que a maciça instrumentação conseguiu capturar.
