
— Bolas! A Madalena saiu. Tenho de ir abrir. Tendo ficado só, aproximei-me do aparelho e, indiscretamente, ergui a cobertura.
Fiquei boquiaberto. Em lugar do mecanismo improvisado que esperava, vi um maravilhoso conjunto de tubos de vidro e de metal, de ampolas transparentes ou opacas, de ligações. Em múltiplos mostradores agulhas bífidas marcavam graduações de que eu não pude adivinhar o significado. Estou habituado a toda a espécie de aparelhos científicos e utilizamos, no meu laboratório, alguns bem complexos. Mas não conhecia nenhum que se assemelhasse a este ouvindo no corredor os passos apressados do meu amigo, deixei cair rapidamente a cobertura e, com ar indiferente, pus-me a olhar distraidamente o jardim, através da janela.
— Um caso de difteria num garoto. O meu colega está ausente. Tenho de ir. Leia um livro no meu gabinete enquanto não volto.
— Quer que lhe leve? O meu carro está na porta.
— Ótimo. Isso evitará que vá tirar o meu da garagem.
Pelo caminho meditava nas singularidades que havia notado. Clair só me esperava de noite e ficara com um ar embaraçado por eu ter chegado mais cedo. Tinha-me entretido durante alguns minutos na porta, embora fizesse frio. Eu percebera uma silhueta esquivando-se no corredor e, logo a seguir, Clair conduzira-me para dentro.
Mostrara um ar satisfeito quando soubera do falecimento de minha mãe e por eu ficar sozinho no mundo. E, por fim, havia aquele estranho aparelho… Diabos me levem se descortinava para que servia! E, ainda por cima, num laboratório de biologia! Seria Clair o inventor? Isso já me parecia possível. E o construtor? Recordei— me das suas montagens de física, no liceu, e não pude deixar de sorrir.
Paramos em frente a uma chácara. Clair só se demorou um quarto de hora.
— Não é nada. Vim a tempo. O meu colega continuará o tratamento.
— Você não clinica mais?
— Raramente. Não tenho tempo. Somente quando o Dr. Gauthier está ausente ou quando me pede consulta.
