
— Não posso lhe retribuir o cumprimento. Você envelheceu.
— Ah! Talvez… talvez! Passe primeiro.
O gabinete dele que eu bem conhecia, com as estantes de livros (dos quais bem poucos tratavam de medicina), estava vazio, mas nele flutuava um sutil e agradável perfume, que aspirei. Clair apercebeu-se disso e, evitando qualquer pergunta minha, esclareceu:
— Sim, recebi há alguns dias — oh! em consulta… uma célebre atriz e o seu perfume ainda permanece. É extraordinário o progresso da química!
Estabelecemos uma conversa sem sequência. Comuniquei-lhe a morte de minha mãe e tive a surpresa de o ouvir dizer: «Ah! Muito bem!».
— O quê? Muito bem?! — exclamei, indignado e penalizado.
— Não, eu queria dizer que compreendo, finalmente, porque você me deixou tanto tempo sem notícias suas. Então você está agora sozinho no mundo?
— Sim.
— Pois bem, talvez proponha a você uma coisa muito interessante. Mas é ainda um vago projeto. Falaremos dele hoje de noite.
— E no laboratório? Algo de novo?
— Quer vê-lo? Venha comigo.
O laboratório — construído após a minha última visita, há quatro anos — era uma ampla divisão envidraçada, mais comprida do que larga, que ocupava os fundos da casa. Detive-me na porta, assobiando de admiração. Percorri-o, notando, de passagem, o micromanipulador, o coração artificial. Num quarto escuro contíguo erguia-se um enorme gerador de raios X. No centro do laboratório, sobre uma mesa, uma cobertura dissimulava um aparelho.
— E isto? — perguntei.
— Não é nada. Não está ainda pronto. É uma experiência…
— Ignorava que você construía aparelhos. Sabe que, como físico, poderei talvez lhe ajudar.
— Veremos. mais tarde. Agora prefiro não falar no assunto.
— Seja — disse eu, um pouco constrangido. — Se isso lhe desagrada…
A campainha da porta da rua tiniu.
