Espera alguém? — perguntei.

— Não, mas vou lhe apresentar minha mulher.

— Sua mulher?! Você é casado?!

E pensei: «A silhueta!».

— Oficialmente, ainda não. Mas não demorará, desde que tenhamos os papéis. Ulna é estrangeira.

Hesitou um momento.

— É escandinava: finlandesa. Quero lhe advertir de que ainda fala mal o francês.

— Você fala finlandês? É novidade para mim!

— Aprendi no ano passado, numa viagem de dez meses. Creio que mandei lhe dizer.

— Não. E julgava eu que o finlandês era difícil!

— E é. Mas, você sabe, a minha hereditariedade eslava…

Chamou: «Ulna!».

Uma esguia e estranha rapariga entrou: alta, loura, de um louro-pálido, olhos de uma cor indecisa — que não se poderia dizer se era cinzenta, azul ou verde —, de traços regulares. Era muito bela. Mas qualquer coisa nela surpreendia, sem que se pudesse precisar o que era. Talvez a pele dourada, contrastando com o louro-pálido dos cabelos? Ou a inverosímil pequenez da boca? A notável amplidão dos olhos? Ou tudo isso junto?

Inclinou-se graciosamente perante mim e estendeu-me a mão, uma mão que me pareceu extraordinariamente alongada, pronunciando ao mesmo tempo algumas palavras em voz muito baixa, mas cantante.

Fiquei sentado na frente dela. Quanto mais a olhava mais estranha me parecia.

Servia-se com presteza da faca e do garfo, mas não com aquele automatismo inconsciente que o hábito dá.

Me conservei mais ou menos calado durante o jantar. Clair falou por todos nós. A velha Madalena era uma cozinheira de primeira qualidade, mesmo nesta região, onde as boas cozinheiras abundam. O meu amigo tinha feito uma razia na adega. Notei que Ulna comia pouco e não bebia, contrariamente ao doutor e, devo confessá-lo, a mim próprio. À medida que o jantar prosseguia perdi pouco a pouco o constrangimento que me paralisava.



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