
O rapaz jurou. A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus.
— É um sonho da Linguagem do Mundo — disse ela. — Posso interpretá-lo, e é uma interpretação muito difícil. Por isso acho que mereço minha parte no seu achado.
«E a interpretação é esta: você deve ir até as Pirâmides do Egito. Nunca ouvi falar delas, mas se foi uma criança que lhe mostrou, é porque existem. Lá você encontrará um tesouro que lhe fará rico».
O rapaz ficou surpreso, e depois irritado. Não precisava ter procurado a velha para isto.
Finalmente lembrou-se de que não estava pagando nada.
— Para isto eu não precisava perder meu tempo — disse.
— Por isso lhe falei que seu sonho era difícil. As coisas simples são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las. Já que não sou uma sábia, tenho que conhecer outras artes, como a leitura de mãos.
— E como eu vou chegar até o Egito?
— Eu só interpreto sonhos. Não sei transformá-los em realidade. Por isso tenho que viver do que minhas filhas me dão.
— E se eu não chegar até o Egito?
— Eu fico sem pagamento. Não será a primeira vez.
E a velha não disse mais nada. Pediu para que o rapaz saísse, pois já tinha perdido muito tempo com ele.
O rapaz saiu decepcionado e decidido a nunca mais acreditar em sonhos.
Lembrou-se de que tinha várias providências a tomar: foi ao armazém arranjar alguma comida, trocou seu livro por um livro mais grosso, e sentou-se num banco da praça para saborear o vinho novo que havia comprado.
Era um dia quente, e o vinho, por um destes mistérios insondáveis, conseguia resfriar um pouco seu corpo.
As ovelhas estavam na entrada da cidade, no estábulo de um novo amigo seu. Conhecia muita gente por aquelas bandas — e por isso gostava de viajar.
