
A gente sempre acaba fazendo amigos novos, e não precisa ficar com eles dia após dia.
Quando a gente vê sempre as mesmas pessoas — e isto acontecia no seminário — terminamos fazendo com que elas passem a fazer parte de nossas vidas. E como elas fazem parte de nossas vidas, passam também a querer modificar nossas vidas. Se a gente não for como elas esperam ficar, chateadas. Porque todas as pessoas tem a noção exata de como devemos viver nossa vida.
E nunca têm noção de como devem viver as suas próprias vidas. Como a mulher dos sonhos, que não sabia transformá-los em realidade.
Resolveu esperar o sol descer um pouco, antes de seguir com suas ovelhas em direção ao campo.
Daqui a três dias iria estar com a filha do comerciante.
Começou a ler o livro que tinha conseguido com o padre de Tarifa.
Era um livro grosso, que falava de um enterro logo na primeira página.
Além disso, o nome dos personagens eram complicadíssimos.
Se algum dia escrevesse um livro, pensou ele, ia colocar um personagem aparecendo de cada vez, para que os leitores não tivessem que ficar decorando nomes.
Quando conseguiu concentrar-se um pouco na leitura, — e era boa, porque falava de um enterro na neve, o que lhe transmitia uma sensação de frio debaixo daquele imenso sol — um velho sentou-se ao seu lado e começou a puxar conversa.
— O que eles estão fazendo? — perguntou o velho, apontando para as pessoas da praça.
— Trabalhando — respondeu o rapaz, secamente, e voltou a fingir que estava concentrado na leitura. Na verdade, estava pensando em tosquiar as ovelhas na frente da filha do comerciante, para ela atestar como ele era capaz de fazer coisas interessantes. Já havia imaginado esta cena uma porção de vezes; em todas elas, a menina ficava deslumbrada quando ele começava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trás para frente.
Também tentava se lembrar de algumas boas histórias para contar a ela enquanto tosquiava as ovelhas.
