
Havia também a filha do comerciante, mas ela não era tão importante como as ovelhas, porque não dependia dele. Talvez sequer se lembrasse dele.
Teve certeza de que, se não aparecesse daqui a dois dias, a menina não iria notar: para ela todos os dias eram iguais, e quando todos os dias ficam iguais, é porque as pessoas deixaram de perceber as coisas boas que aparecem em suas vidas sempre que o sol cruza o céu.
«Eu larguei meu pai, minha mãe, e o castelo da minha cidade. Eles se acostumaram e eu me acostumei. As ovelhas também vão se acostumar com a minha falta», pensou o rapaz.
De lá de cima ele olhou a praça. O pipoqueiro continuava vendendo suas pipocas. Um jovem casal sentou-se no banco onde ele havia conversado com o velho, e deram um longo beijo.
«O pipoqueiro», disse para si mesmo, sem completar a frase. Porque o Levante havia começado a soprar com mais força, e ele ficou sentindo o vento no rosto.
Ele trazia os mouros, é verdade, mas também trazia o cheiro do deserto e das mulheres cobertas com véu. Trazia o suor e os sonhos dos homens que um dia haviam partido em busca do desconhecido, de ouro, de aventuras — e de pirâmides.
O rapaz começou a invejar a liberdade do vento, e percebeu que poderia ser como ele.
Nada o impedia, exceto ele próprio.
As ovelhas, a filha do comerciante, os campos de Andaluzia, eram apenas os passos de sua Lenda Pessoal.
No dia seguinte o rapaz encontrou-se com o velho ao meio-dia. Trazia seis ovelhas consigo.
— Estou surpreso — disse ele. — Meu amigo comprou imediatamente as ovelhas. Disse que a vida inteira havia sonhado em ser pastor, e aquilo era um bom sinal.
— É sempre assim — disse o velho. — Chamamos de Princípio Favorável.
Se você for jogar baralho pela primeira vez, com quase toda certeza irá ganhar. Sorte de principiante.
