Quando estava no guichê, o rapaz havia se lembrado de suas ovelhas, e sentiu medo de voltar para junto delas.

Dois anos haviam passado aprendendo tudo sobre a arte do pastoreio; sabia tosquiar, cuidar das ovelhas grávidas, proteger os animais contra os lobos.

Conhecia todos os campos e pastos de Andaluzia. Conhecia o preço justo de comprar e vender cada um dos seus animais.

Resolveu voltar até o estábulo de seu amigo pelo caminho mais longo. A cidade também tinha um castelo, e ele resolveu subir a rampa de pedra e sentar-se numa de suas muradas. Lá de cima ele podia ver a África. Alguém certa vez havia lhe explicado que por ali chegaram os mouros, que ocuparam durante tantos anos quase toda a Espanha.

O rapaz detestava os mouros. Eles é que tinham trazido os ciganos.

De lá podia ver também quase toda a cidade, inclusive a praça onde havia conversado com o velho.

«Maldita hora em que encontrei este velho», pensou ele.

Tinha ido apenas buscar uma mulher que interpretasse sonhos.

Nem a mulher nem o velho davam qualquer importância para o fato de que ele era um pastor.

Eram pessoas solitárias, que já não acreditavam mais na vida, e não entendiam que os pastores terminam apegados às suas ovelhas.

Ele conhecia em detalhes cada uma delas: sabia qual mancava, qual iria dar cria daqui a dois meses, e quais eram as mais preguiçosas.

Sabia também como tosquiá-las, e como matá-las. Se resolvesse partir, elas sofreriam.

Um vento começou a soprar. Ele conhecia aquele vento: as pessoas o chamavam de Levante, porque com este vento chegaram também as hordas de infiéis.

Até conhecer Tarifa, nunca havia pensado que a África estava tão perto. Isto era um grande perigo: os mouros poderiam invadir novamente.

O Levante começou a soprar mais forte. «Estou entre as ovelhas e o tesouro», pensava o rapaz. Tinha que decidir-se entre alguma coisa que havia se acostumado e alguma coisa que gostaria de ter.



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