— Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo — disse o Sábio. — Você não pode confiar num homem se não conhece sua casa.

«Já mais tranquilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes.

Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar.

De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto.

— Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? — perguntou o Sábio.

«Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.

— Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar — disse o mais Sábio dos Sábios. — O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher».

O rapaz ficou em silêncio. Havia compreendido a história do velho rei. Um pastor gosta de viajar, mas jamais esquece suas ovelhas.

O velho olhou para o rapaz, e com as duas mãos espalmadas fez alguns gestos estranhos em sua cabeça.

Depois, pegou os animais e seguiu seu caminho.

No alto da pequena cidade de Tarifa existe um velho forte construído pelos mouros, e quem senta em suas muralhas consegue enxergar uma praça, um pipoqueiro, e um pedaço da África.

Melquisedec, o Rei de Salem, sentou-se na murada do forte aquela tarde, e sentiu o vento Levante no rosto.

As ovelhas esperneavam ao seu lado, com medo do novo dono, e excitadas com tantas mudanças.

Tudo que elas queriam era apenas comida e água.

Melquisedec olhou o pequeno navio que estava zarpando do porto. Nunca mais tornaria a ver o rapaz, da mesma maneira como jamais tornou a ver Abraão, depois de lhe ter cobrado o dízimo.

Entretanto, esta era a sua obra.



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