Os deuses não devem ter desejos, porque os deuses não têm Lenda Pessoal. Entretanto, o Rei de Salem torceu intimamente para que o rapaz tivesse êxito.

«Pena que ele vai esquecer logo meu nome», pensou. «Devia ter repetido mais de uma vez. Assim, quando falasse a meu respeito, diria que sou Melquisedec, o Rei de Salem.»

Depois olhou para o céu meio arrependido: «sei que é vaidade das vaidades, como Tu disseste, Senhor. Mas um velho rei às vezes tem que sentir orgulho de si mesmo».

«Como é estranha a África», pensou o rapaz.

Estava sentado numa espécie de bar igual a outros bares que ele havia encontrado nas ruelas estreitas da cidade. Algumas pessoas fumavam um cachimbo gigante, que era passado de boca em boca. Em poucas horas havia visto homens de mãos dadas, mulheres com o rosto coberto, e sacerdotes que subiam em longas torres e começavam a cantar — enquanto todos à sua volta se ajoelhavam e batiam com a cabeça no solo.

«Coisa de infiéis», disse para si mesmo.

Quando criança, via sempre na igreja da sua aldeia uma imagem de São Santiago Matamouros em seu cavalo branco, com a espada desembainhada, e figuras como aquelas debaixo de seus pés.

O rapaz sentia-se mal e terrivelmente só. Os infiéis tinham um olhar sinistro.

Além disso, na pressa de viajar, ele havia se esquecido de um detalhe, um único detalhe, que podia afastá-lo do seu tesouro por muito tempo: naquele país todos falavam árabe.

O dono do bar se aproximou e o rapaz apontou para uma bebida que tinha sido servida em outra mesa.

Era um chá amargo. O rapaz preferia beber vinho.

Mas não devia preocupar-se com isto agora. Tinha que pensar apenas no seu tesouro, e a maneira de consegui-lo.

A venda das ovelhas lhe havia deixado com bastante dinheiro no bolso, e o rapaz sabia que o dinheiro era mágico: com ele ninguém jamais está sozinho.

Daqui a pouco, talvez em alguns dias, estaria junto das Pirâmides.



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