
«Tudo isto entre o nascente e o poente do mesmo sol» — pensou o rapaz. E sentiu pena de si mesmo, porque às vezes as coisas mudam na vida no espaço de um simples grito, antes que as pessoas possam se acostumar com elas.
Tinha vergonha de chorar. Jamais havia chorado na frente de suas próprias ovelhas. Entretanto, o mercado estava vazio e ele estava longe da pátria.
O rapaz chorou. Chorou porque Deus era injusto, e retribuía desta maneira às pessoas que acreditavam em seus próprios sonhos. «Quando eu estava com as ovelhas eu era feliz, e espalhava sempre felicidade à minha volta. As pessoas me viam chegar e me recebiam bem.
«Mas agora estou triste e infeliz. O que farei? Vou ser mais amargo e não vou confiar nas pessoas, porque uma pessoa me traiu.
Vou odiar aqueles que encontraram tesouros escondidos, porque eu não encontrei o meu. E vou sempre procurar manter o pouco que tenho, porque sou pequeno demais para abraçar o mundo».
Abriu seu alforje para ver o que tinha lá dentro; talvez tivesse sobrado alguma coisa do sanduíche que havia comido no barco. Mas só encontrou o livro grosso, o casaco, e as duas pedras que o velho lhe dera.
Ao olhar as pedras, sentiu uma imensa sensação de alívio. Tinha trocado seis ovelhas por duas pedras preciosas, saídas de um peitoral de ouro.
Podia vender as pedras e comprar a passagem de volta.
«Agora serei mais esperto», pensou o rapaz, tirando as pedras do alforje para escondê-las dentro do bolso. Ali era um porto, e esta era a única verdade que aquele homem lhe dissera; um porto está sempre cheio de ladrões.
Agora entendia também o desespero do dono do bar: estava tentando dizer-lhe para não confiar naquele homem.
«Sou como todas as pessoas: vejo o mundo da maneira que desejava que as coisas acontecessem, e não da maneira que as coisas acontecem».
Ficou olhando as pedras. Tocou com cuidado cada uma, sentindo a temperatura e a superfície lisa. Elas eram seu tesouro.
