
Refletiu um momento, e pensou que podia ser também o contrário: ele que havia se acostumado ao horário das ovelhas.
Haviam certas ovelhas, porém, que demoravam um pouco mais para levantar. O rapaz acordou uma a uma com seu cajado, chamando cada qual pelo seu nome.
Sempre acreditara que as ovelhas eram capazes de entender o que ele falava. Por isso costumava às vezes ler para elas os trechos de livros que o haviam impressionado, ou falar da solidão e da alegria de um pastor no campo, ou comentar sobre as últimas novidades que via nas cidades por onde costumava passar.
Nos últimos dois dias, porém, seu assunto tinha sido praticamente um só: a menina, filha do comerciante, que morava na cidade por onde ia chegar daqui a quatro dias. Tinha estado apenas uma vez lá, no ano anterior. O comerciante era dono de uma loja de tecidos, e gostava sempre de ver as ovelhas tosquiadas na sua frente, para evitar falsificações. Um certo amigo tinha indicado a loja, e o pastor levou lá suas ovelhas.
«Preciso vender alguma lã», disse para o comerciante.
A loja do homem estava cheia, e o comerciante pediu que o pastor esperasse até o entardecer. Ele sentou-se na calçada da loja e tirou um livro do alforje.
— Não sabia que os pastores são capazes de ler livros — disse uma voz feminina ao seu lado.
Era uma moça típica da região de Andaluzia, com seus cabelos negros escorridos, e os olhos que lembravam vagamente os antigos conquistadores mouros.
— É porque as ovelhas ensinam mais que os livros — respondeu o rapaz.
