Ficaram conversando por mais de duas horas.

Ela contou que era filha do comerciante, e falou da vida na aldeia, onde cada dia era igual ao outro.

O pastor contou dos campos de Andaluzia, das últimas novidades que viu nas cidades onde visitara. Estava contente por não precisar conversar sempre com as ovelhas.

— Como aprendeu a ler? — perguntou a moça a certa altura.

— Como todas as outras pessoas — respondeu o rapaz. — Na escola.

— E, se sabe ler, então por que é apenas um pastor?

O rapaz deu uma desculpa qualquer para não responder aquela pergunta. Ele tinha certeza de que a moça jamais entenderia. Continuou a contar suas histórias de viagem, e os pequenos olhos mouros abriam-se e fechavam-se de espanto e surpresa.

À medida que o tempo foi passando, o rapaz começou a desejar que aquele dia não acabasse nunca, que o pai da moça ficasse ocupado por muito tempo e o mandasse esperar por três dias.

Percebeu que estava sentindo uma coisa que nunca havia sentido antes: vontade de ficar morando numa mesma cidade para sempre. Com a menina de cabelos negros, os dias nunca seriam iguais.

Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas. Depois, pagou-lhe o que era devido, e pediu que voltasse no ano seguinte.

Agora faltavam apenas quatro dias para chegar de novo à mesma aldeia. Estava excitado e ao mesmo tempo inseguro: talvez a menina já tivesse esquecido. Por ali passavam muitos pastores para vender lã.

— Não tem importância — disse o rapaz para as suas ovelhas. — Eu também conheço outras meninas em outras cidades.

Mas no fundo do seu coração, ele sabia que tinha importância. E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes, sempre conheciam uma cidade onde havia alguém capaz de fazer com que esquecessem a alegria de viajar solto pelo mundo.



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