
O casaco tinha um motivo, e o rapaz também.
Em dois anos pelas planícies de Andaluzia ele ja sabia de cor todas as cidades da região, e esta era a grande razão de sua vida; viajar.
Estava planejando explicar desta vez à menina porque um simples pastor sabe ler: havia estado até os dezesseis anos num seminário.
Seus pais queriam que ele fosse padre, e motivo de orgulho para uma simples família camponesa, que trabalhava apenas para comida e água, como suas ovelhas.
Estudou latim, espanhol, e teologia. Mas desde criança sonhava em conhecer o mundo, e isto era muito mais importante do que conhecer Deus ou os pecados dos homens.
Certa tarde, ao visitar a família, havia tomado coragem e dito para seu pai que não queria ser padre. Queria viajar.
— Homens de todo o mundo já passaram por esta aldeia, filho — disse o pai. — Vêm em busca de coisas novas, mas continuam as mesmas pessoas.
Vão até o morro conhecer o castelo e acham que o passado era melhor que o presente.
Têm cabelos louros ou pele escura, mas são iguais aos homens de nossa aldeia.
— Mas não conheço os castelos das terras de onde eles vêm — retrucou o rapaz.
— Estes homens, quando conhecem nossos campos e nossas mulheres, dizem que gostariam de viver para sempre aqui — continuou o pai.
— Quero conhecer as mulheres e as terras de onde eles vieram — disse o rapaz. — Porque eles nunca ficam por aqui.
— Os homens trazem a bolsa cheia de dinheiro — disse mais uma vez o pai. — Entre nós, só os pastores viajam.
— Então serei pastor.
O pai não disse mais nada. No dia seguinte deu-lhe uma bolsa com três antigas moedas de ouro espanholas.
— Achei certo dia no campo. Iam ser da Igreja, como seu dote. Compre seu rebanho e corra o mundo até aprender que nosso castelo é o mais importante, e nossas mulheres são as mais belas.
