O dia começou a raiar e o pastor colocou as ovelhas seguindo em direção ao sol.

«Elas nunca precisam tomar uma decisão», pensou ele. «Talvez por isso fiquem sempre juntos de mim». A única necessidade que as ovelhas sentiam era de água e de alimento.

Enquanto o rapaz conhecesse os melhores pastos em Andaluzia, elas seriam sempre suas amigas. Mesmo que os dias fossem todos iguais, com longas horas se arrastando entre o nascer e o pôr-do-sol; mesmo que elas jamais tivessem lido um só livro em suas curtas vidas, e não conhecessem a língua dos homens que contavam as novidades nas aldeias.

Elas estavam contentes com água e alimento, e isto bastava. Em troca, ofereciam generosamente sua lã, sua companhia, e — de vez em quando — sua carne.

«Se hoje eu me tornasse um monstro e resolvesse matar uma por uma, elas só iam perceber depois que quase todo o rebanho tivesse sido exterminado», pensou o rapaz.

«Porque confiam em mim, e se esqueceram de confiar nos seus próprios instintos. Só porque as conduzo ao alimento e à comida».

O rapaz começou a estranhar seus próprios pensamentos. Talvez a igreja, com aquele sicômoro crescendo dentro, fosse mal-assombrada.

Tinha feito com que sonhasse um mesmo sonho pela segunda vez, e estava lhe dando uma sensação de raiva contra suas companheiras, sempre tão fiéis. Bebeu um pouco de vinho que havia sobrado do jantar na noite anterior, e apertou contra o corpo o seu casaco. Ele sabia que daqui a algumas horas, com o sol a pino, o calor seria tão forte que não ia poder conduzir as ovelhas pelo campo. Era a hora que toda a Espanha dormia no verão. O calor durava até a noite, e durante todo este tempo ele tinha que ficar carregando o casaco. Entretanto, quando pensava em reclamar do peso, sempre lembrava que por causa dele não havia sentido frio de manhã.

«Temos que estar sempre preparados para as surpresas do tempo», pensava então ele, e sentia-se grato pelo peso do casaco.



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