
Nessa época, o Império de Kargad era forte. É ele formado por quatro grandes regiões que ficavam entre a Extrema Norte e a Extrema Leste: Karego-At, Atuan, Hur-at-Hur e Atnini. A língua que ali falam não se assemelha a qualquer outra que se fale no Arquipélago ou nas outras Estremas. O seu povo é selvagem, de pele branca e cabelo louro, e de grande ferocidade, gostando da vista do sangue e do cheiro de cidades incendiadas. No ano anterior tinham atacado as Torikles e a ilha fortificada de Torheven, assaltando-as com grandes forças de guerreiros transportados em frotas de navios com velas vermelhas. Novas deste ataque chegaram até Gont, a norte, mas os senhores de Gont estavam muito ocupados com os seus surtos de pirataria e pouca importância davam às atribulações das outras terras. Depois foi a vez de Spevy cair perante a investida dos kargs. Foi saqueada e destruída, o seu povo feito escravo, pelo que, até hoje, é uma ilha em ruínas. Tomados pela febre da conquista, os kargs fizeram-se seguidamente à vela para Gont, chegando ao Porto de Leste com uma força de trinta grandes barcos. Invadiram a povoação, tomaram-na pelas armas, incendiaram-na. Deixando os navios sob guarda na foz do rio Ar, subiram o vale, destruindo e pilhando, trucidando homens e gado. À medida que avançavam, dividiram-se em bandos, e cada um destes pilhava onde lhe apetecia. Gente em fuga veio avisar as aldeias mais elevadas. Em breve o povo de Dez Armeiros via como o fumo ia escurecendo o céu para leste e, nessa noite, aqueles que subiram à Cascata Grande olharam o vale lá em baixo e viram-no enevoado e com traços vermelhos onde os campos, prontos para a ceifa, tinham sido incendiados, os pomares ardiam com os frutos a assar nos ramos em brasa, e celeiros e casas de lavoura, em ruínas, se consumiam lentamente.
