Alguns dos aldeões fugiram ravinas acima e foram esconder-se na floresta, alguns prepararam-se para lutar pelas suas vidas, outros não fizeram nem uma coisa nem outra, ficando para ali a lamentarem-se. A bruxa fazia parte dos que fugiram, escondendo-se sozinha numa caverna da Escarpa de Kapperding e selando a entrada com várias encantamentos. O pai de Duny, o bronzeiro, foi um dos que ficaram, por não querer deixar o forno de fundição e a forja onde trabalhara durante cinqüenta anos. Toda a noite ele trabalhou, transformando todo o metal de que dispunha em pontas de lança, e outros trabalharam com ele, atando essas pontas a cabos de enxadas e ancinhos, já que não havia tempo para trabalhar a madeira e a encaixar devidamente. Além de arcos para a caça e facas curtas, não havia armas na aldeia, porque os montanheses de Gont não são aguerridos. A sua fama não vem de serem guerreiros, mas sim ladrões de cabras, piratas e feiticeiros.

Com o nascer do Sol, veio um nevoeiro espesso e branco, como é vulgar suceder em muitas manhãs de Outono, nas partes mais altas da ilha. No meio das suas casas e cabanas, ao longo da rua irregular de Dez Amieiros, os aldeões esperavam com os seus arcos de caça e recém-forjadas lanças, sem saber se os kargs estariam longe ou bem próximos, todos em silêncio, todos perscrutando o nevoeiro que ocultava aos seus olhos formas, distâncias e perigos.

Com eles estava Duny. Toda a noite trabalhara nos foles da forja, empurrando e puxando as duas longas mangas de pele de cabra que alimentavam o fogo com o seu sopro. Agora, daquele esforço, os seus braços doíam-lhe e tremiam de tal modo que não conseguia segurar a lança que escolhera. Não via como poderia lutar ou ser de qualquer utilidade para si ou para os aldeões. Amargurava-lhe o coração pensar que iria morrer, trespassado por uma lança karguiana, sendo ainda e apenas um rapaz, que iria descer à terra sem nunca ter chegado a conhecer o seu próprio nome, o seu nome-verdadeiro, como homem.



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