A tela ficara subitamente branca quando o míssil se destruíra com o impacto, e a imagem passara imediatamente para uma câmara transportada por via aérea, a muitos quilômetros de distância. Na fração de segundo que decorrera, deveria ter-se formado uma bola de fogo, que devia estar enchendo o céu com suas chamas solares.

Mas nada disso acontecera. As grandes naves tinham continuado a pairar, banhadas pela luz crua do sol, na fronteira do espaço. Não só a bomba não conseguira acertá-las, como ninguém pudera jamais chegar a uma conclusão sobre o que acontecera ao míssil. Além do mais, Karellen não tomara qualquer atitude contra os responsáveis ou sequer demonstrara ter tido conhecimento do ataque. Ignorara-os com o maior desprezo, deixando-os preocupados com uma vingança que nunca se concretizou. Fora um tratamento muito mais efetivo e desmoralizante do que qualquer ação punitiva. O governo responsável caíra algumas semanas mais tarde, vítima de recriminações mútuas.

Houvera também alguma resistência passiva à política dos Senhores Supremos. Karellen contornara-a deixando que os implicados agissem como queriam, até descobrirem que só estavam se prejudicando com a recusa a cooperar. Só uma vez tomara medidas diretas contra um governo recalcitrante.

Durante mais de um século, a República da África do Sul fora centro de lutas raciais. De ambos os lados, homens de boa vontade tinham tentado chegar a um acordo que permitisse uma aproximação, mas tudo fora em vão — os temores e preconceitos estavam por demais enraizados para permitir qualquer cooperação. Governos sucessivos só haviam diferido no grau de tolerância. O país estava envenenado pelo ódio e pelas seqüelas de uma guerra civil.

Quando se tornou claro que nenhuma tentativa seria feita para pôr fim à discriminação, Karellen dera o aviso. Marcara apenas uma data e um prazo — nada mais. Isso causara apreensão, mas não propriamente medo ou pânico, pois ninguém acreditava que os Senhores Supremos tomassem qualquer atitude violenta, que envolvesse ao mesmo tempo inocentes e culpados.



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