Os picadores tinham tomado seus lugares e o touro entrou, bufando, na arena. Os esquálidos cavalos, as ventas frementes de pavor, forçados pelos cavaleiros, aproximaram-se do inimigo. A primeira banderilla brilhou ao sol, penetrou no touro e, nesse momento, da Plaza de Toros se ergueu um grito como jamais se ouvira em toda a Terra.

Era o grito de dez mil pessoas, sentindo a dor da mesma ferida, dez mil pessoas que, uma vez recuperadas do choque, viram que estavam incólumes. Mas assim terminara aquela tourada, e todas as demais touradas, pois a notícia se espalhara rapidamente. Os aficionados tinham ficado tão abalados, que só um em dez pedira de volta o dinheiro da entrada. O Daily Mirror de Londres piorara ainda mais as coisas, sugerindo que os espanhóis adotassem o críquete como seu novo esporte nacional.

— O senhor pode ter razão — replicou o velho galês. — Talvez os motivos dos Senhores Supremos não sejam maus, de acordo com os seus padrões, que podem ocasionalmente coincidir com os nossos. Mas isso não impede que eles sejam usurpadores. Nós nunca lhes pedimos que viessem e virassem nosso mundo de cabeça para baixo, destruindo ideais — sim, e nações — que gerações e gerações de homens lutaram para proteger.

— Sou de um pequeno país, que teve de lutar para ter direito às suas liberdades — retrucou Stormgren. — Não obstante, sou a favor de Karellen. Vocês podem irritá-lo, podem inclusive retardar a conquista de seus objetivos, mas isso, no fim, não fará nenhuma diferença. Não duvido de que sejam sinceros. Compreendo seu temor de que as tradições e culturas dos pequenos países sejam destruídas com a criação do Estado Mundial. Mas enganam-se: não adianta agarrar-se ao passado. Mesmo antes da chegada dos Senhores Supremos, o Estado soberano já estava moribundo. Eles apenas apressaram seu fim. Ninguém agora pode salvá-lo, e ninguém deve tentar fazer isso.



40 из 219