
A curiosidade pura e simples era também um motivo poderoso, bem como a determinação de se vingar da brincadeira de que fora vítima. Não havia mais dúvidas de que Karellen o usara como isca e, mesmo que isso tivesse sido pela melhor das razões, Stormgren não se sentia inclinado a perdoar logo o supervisor.
Pierre Duval não mostrou surpresa quando Stormgren entrou, sem se anunciar, em seu gabinete. Eram velhos amigos e nada havia de extraordinário no fato de o secretário-geral fazer uma visita pessoal ao chefe da Secretaria de Ciência. Karellen certamente não acharia estranho se, por acaso, ele — ou um de seus subordinados — voltasse seus instrumentos de vigilância para essa secretaria.
Durante algum tempo, os dois amigos falaram de seu respectivo trabalho e trocaram fofocas políticas. Por fim, com alguma hesitação, Stormgren foi direto ao assunto. À medida que ele falava, o velho francês endireitava-se mais e mais em sua cadeira, ao mesmo tempo que as sobrancelhas iam subindo, milímetro a milímetro, até quase se confundi- rem com a raiz dos cabelos. Uma ou duas vezes deu a impressão de que ia falar, mas acabou desistindo.
Quando Stormgren terminou, o cientista olhou, nervosamente, em volta da sala.
— Acha que ele está ouvindo? — perguntou.
— Não creio que possa. Tem o que ele chama um «rastreador» atrás de mim, pretensamente para minha proteção. Mas não funciona debaixo da terra, uma das razões por que vim até esta sua masmorra. É protegida contra todas as formas de radiação, não é mesmo? Karellen não é nenhum mágico. Sabe onde estou, mas isso é tudo.
