
Stormgren tinha os olhos abertos, mas seu olhar estava fixo para além da escura barreira da tela. Olhava para o futuro, imaginando o dia que não chegaria a ver, quando as grandes naves dos Senhores Supremos descessem, finalmente, à Terra e se abrissem para o mundo.
— Nesse dia — continuou Karellen — a raça humana experimentará o que podemos chamar de descontinuidade psicológica. Mas não se fará sentir nenhum dano permanente: os homens dessa era serão mais estáveis do que os seus avós. Teremos sempre feito parte de suas vidas e, quando eles nos conhecerem, não lhes pareceremos tão estranhos quanto pareceríamos a vocês.
Stormgren nunca ouvira Karellen falar de maneira tão contemplativa, mas isso não constituiu surpresa para ele. Sabia que nunca «vira» mais do que algumas facetas da personalidade do supervisor: o verdadeiro Karellen era desconhecido e talvez nunca pudesse ser conhecido dos seres humanos. Uma vez mais, Stormgren teve a sensação de que os verdadeiros interesses do supervisor estavam muito longe e de que ele governava a Terra com uma fração apenas de sua mente, tão facilmente quanto um grande mestre de xadrez jogaria uma partida de damas.
— E depois disso? — perguntou Stormgren suavemente.
— Depois poderemos dar início à nossa verdadeira tarefa.
— Muitas vezes me perguntei qual seria ela. Organizar nosso mundo e civilizar a raça humana é apenas um meio, vocês devem ter também um objetivo. Será que alguma vez poderemos subir ao espaço, ver seu universo, e talvez ajudá-los em suas tarefas?
— Acho que pode dizer isso — falou Karellen, e sua voz mostrou uma tristeza tão inexplicável, que Stormgren ficou estranhamente perturbado.
