
As grandes naves não tinham, então, sido mais do que símbolos e agora o mundo sabia que todas, menos uma, não haviam passado de naves-fantasmas. Contudo, com sua presença apenas, tinham mudado a história da Terra. Agora, sua tarefa estava terminada e o que se haviam proposto repercutiria por séculos e séculos.
Os cálculos de Karellen tinham sido acurados. O cho-
que da repulsa passara depressa, embora muitos se orgulhassem de não terem superstições — nunca, porém, foram capazes de enfrentar um só dos Senhores Supremos. Havia algo de estranho nisso, algo para além da razão e da lógica. Na Idade Média, as pessoas acreditavam no demônio e o temiam. Mas estávamos no século XXI: seria possível que, afinal de contas, existisse uma memória racial?
Presumia-se, naturalmente, que os Senhores Supremos, ou seres da mesma espécie, tinham entrado em violento conflito com o homem primitivo. O encontro devia ter ocorrido num passado remoto, pois não deixara vestígios na história. Era outro enigma, para cuja solução Karellen não ajudava em nada.
Embora já se tivessem revelado aos homens, os Senhores Supremos raramente saíam da nave remanescente. Talvez achassem a Terra fisicamente desconfortável para seu tamanho, e a existência de asas indicava que vinham de um mundo de gravidade bem mais baixa. Nunca eram vistos sem um cinturão cheio de mecanismos complicados que, conforme se acreditava, controlavam-lhes o peso e permitiam-lhes comunicar-se uns com os outros. A luz do sol resultava-lhes dolorosa e nunca ficavam mais de uns poucos segundos expostos a ela. Quando tinham que ficar ao ar livre durante um espaço maior de tempo, usavam óculos escuros, que lhes davam uma aparência algo incongruente. Embora parecessem capazes de respirar o ar terrestre, carregavam às vezes pequenos cilindros de gás, que utilizavam ocasionalmente.
