A aproximadamente um quilômetro de distância, uma pequena mas decidida multidão dirigia-se, lentamente, para o Edifício do Secretariado. Carregavam bandeiras, indecifráveis ao longe, mas cuja mensagem Stormgren conhecia bem. Não tardou que ouvisse, erguendo-se acima do barulho do trânsito, o canto, ameaçadoramente ritmado, de muitas vozes. Sentiu-se tomado por uma súbita onda de desagrado. O mundo já tinha tido mais do que sua dose de multidões em marcha e slogans indignados!

A passeata estava agora em frente ao edifício. Deviam saber que ele estava olhando, pois aqui e ali punhos se agitavam, de maneira pouco espontânea, no ar. Não o estavam desafiando, embora sem dúvida o gesto fosse para Stormgren ver. À maneira de pigmeus ameaçando um gigante, aqueles punhos cerrados estavam sendo brandidos contra o céu, cinqüenta quilômetros acima da cabeça dele — contra a reluzente nuvem de prata que era a nau capitânea da frota dos Senhores Supremos.

Muito provavelmente, pensou Stormgren, Karellen estava assistindo a tudo e se divertindo a valer, pois aquele encontro nunca teria tido lugar senão por instigação do supervisor.

Era a primeira vez que Stormgren se encontrava com o líder da Liga da Liberdade. Já não queria saber se a medida era acertada, pois os planos de Karellen muitas vezes eram por demais sutis para a compreensão humana. De qualquer maneira, Stormgren não achava que daí pudesse advir qualquer mal. Se se houvesse recusado a receber Wainwright, a liga teria usado o fato como uma arma contra ele.

Alexander Wainwright era um homem alto e de boa aparência, de quase cinqüenta anos. Stormgren sabia que ele era completamente honesto e, por conseguinte, duplamente perigoso. Contudo, a sua transparente sinceridade tornava difícil não gostar dele, fossem quais fossem os pontos de vista que se pudesse ter a respeito da causa que ele encarnava — e de alguns dos simpatizantes que ele atraíra.



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