Mais adiante, um casal com uma criança. Depois das ofuscantes luzes de selénio dás plataformas e dos túneis, e da insuportavelmente berrante e incandescente vegetação das ruas, a luz do tecto côncavo parecia, a bem dizer, uma suave incandescência. Como não sabia que fazer com as mãos, pu-las nos joelhos. Já estava toda a gente sentada. Oito filas de lugares cinzentos, uma brisa perfumada de abeto, um abafar das conversas. Esperava qualquer prenúncio acerca do lançamento, quaisquer sinais, a ordem para apertar os cintos, mas não aconteceu nada. Através do tecto fosco começaram a mover-se sombras ténues da frente para a retaguarda, como recortes de papel de pássaros. «Que diabo vêm a ser estes pássaros?», perguntei a mim mesmo. «Significarão alguma coisa?» Estava entorpecido da tensão para tentar não fazer nada errado. Havia já quatro dias. Começara logo no primeiro momento. Ficava invariavelmente para trás de tudo quanto acontecia e o esforço constante para compreender a mais simples conversa ou situação transformava essa tensão em algo horrivelmente semelhante ao desespero. Tinha a certeza de que acontecia o mesmo aos outros, mas não falávamos disso, nem mesmo quando estávamos juntos, sozinhos. Limitávamo-nos a gracejar acerca do nosso músculo, da força excessiva que permanecia em nós — e na verdade precisávamos de estar atentos a esse aspecto: ao princípio, quando me queria levantar, saltava direito ao tecto, e qualquer objecto que segurasse parecia feito de papel, vazio. Mas aprendi depressa a controlar o corpo. Ao cumprimentar as pessoas, já lhes não esmagava os dedos. Era uma coisa fácil de conseguir, mas, infelizmente, a menos importante.

O meu vizinho da esquerda — corpulento, bronzeado, com olhos que brilhavam de mais (de lentes de contacto?) — desapareceu de súbito. Os lados do seu lugar expandiram-se e subiram, a formar uma espécie de casulo com o formato de um ovo.



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