
Algumas outras pessoas desapareceram em cubículos semelhantes. Sarcófagos inchados. Que faziam eles? Mas eu encontrava coisas desse género a toda a hora e tentava não olhar embasbacado, desde que me não dissessem directamente respeito. Por curioso que pareça, tratava cora indiferença as pessoas que ficavam boquiabertas a olhar para nós, ao saberem quem éramos. O seu espanto não me importava muito, embora apercebesse imediatamente de que não havia nele a ínfima admiração. Quem despertava a minha antipatia eram os que olhavam por nós, o pessoal da Adaptação. Sobretudo o Dr. Abs, porque me tratava como um médico trataria um paciente anormal, fingindo — e muito bem — que estava a lidar com alguém perfeitamente normal. Quando isso se tomava impossível, gracejava. Estava farto da sua abordagem directa e da sua jovialidade. Se o interrogassem a tal respeito (ou, pelo menos, eu assim pensava), o homem da rua diria que Olaf ou eu éramos semelhantes a ele, não nos consideraria assim tão diferentes dele; o que era invulgar era apenas a nossa experiência passada. Mas o Dr. Abs, e todos os outros funcionários da Adaptação, estavam melhor informados, sabiam que nós éramos, decididamente, diferentes. Essa diferença não constituía nenhuma distinção, mas sim, apenas, uma barreira à comunicação, à mais simples troca de palavras, irra! ao mero abrir de uma porta, uma vez que os puxadores tinham deixado de existir havia… enfim, havia 50 ou 60 anos!
A partida foi inesperada. Não houve absolutamente nenhuma mudança na gravidade, nenhum som chegou ao interior hermeticamente fechado, as sombras continuaram a flutuar serenamente no tecto. Deve ter sido um hábito estabelecido há muitos anos, um velho instinto, que me disse que em dado momento estávamos no espaço. Pois tratou-se de uma certeza e não de uma suposição.
Mas havia mais qualquer coisa que me ocupava. Estava meio deitado, com as pernas estendidas, imóvel. Tinham-me deixado fazer a minha vontade com muita facilidade. Nem Oswann se opusera muito à minha decisão.