Passou um jovem casal; a rapariga voltou-se para o homem. Uma nuvem fofa cobria-lhe os braços e os seios. Lançou-se nos braços dele e dançaram. «Ainda dançam», pensei. «Isso é bom». O par deu alguns passos. Um círculo pálido, que parecia de mercúrio, elevou-os juntamente com os outros pares. As suas sombras vermelho-escuras moviam-se sob o enorme prato que girava lentamente, como um disco. Não se apoiava em nada, nem sequer tinha um eixo: suspenso no ar, girava ao compasso da música. Caminhei pelo meio das mesas. O piso macio, plástico, terminou e deu lugar a rocha porosa. Transpus uma cortina de luz e encontrei-me no interior de uma gruta rochosa. Era como dez, cinquenta, naves góticas formadas a partir de estalactites. Depósitos de minerais pejerocom veios, rodeavam a boca das cavernas, nas quais se sentavam pessoas de pernas pendentes, com pequenas chamas a tremeluzir entre os joelhos. Ao fundo, encontrava-se a superfície preta e ininterrupta de um lago subterrâneo, que reflectia as abóbadas de rocha. Aí também havia pessoas reclinadas em pequenas e frágeis jangadas, todas a olhar na mesma direcção. Aproximei-me da beira da água e vi, do outro lado, na areia, uma dançarina. Parecia estar nua, mas a brancura do seu corpo não era natural. Correu para a água com passos curtos, pouco firmes; quando o seu corpo se reflectiu nela, estendeu subitamente os braços e inclinou-se — era o fim —, mas ninguém aplaudiu. A dançarina ficou imóvel durante alguns segundos e depois, lentamente, afastou-se ao longo da margem, acompanhando a sua linha irregular. Encontrava-se talvez a uris 30 passos de mim quando lhe aconteceu qualquer coisa. Num momento, vi-lhe o rosto sorridente e exausto; no seguinte, como se algo se entrepusesse, os seus contornos tremeram e desapareceram.

— Uma jangada, senhor? — perguntou uma voz cortês, atrás de mim.

Virei-me. Ninguém. Só uma mesa aerodinâmica, a deslocar-se sobre pernas comicamente arqueadas. Moveu-se para a frente e os copos de líquido cintilante, dispostos em filas de bandejas laterais, estremeceram. Um braço ofereceu-me cortesmente um copo, o outro estendeu-se para um prato com um buraco para enfiar um dedo, uma coisa parecida com uma pequena paleta côncava. Era um robot. Vi, atrás de uma pequena chapa de vidro do centro, o ténue brilho do seu coração transistorizado.



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