
Aproximei o rosto da concha de água-marinha, a qual se imobilizou, pronta para me ouvir, antes mesmo de eu abrir a boca.
— Como saio daqui? — perguntei, não muito inteligentemente.
— Para onde vai? — respondeu-me imediatamente um alto amável.
— Para a cidade.
— Bairro?
— Não importa.
— Nível?
— Não importa. Só quero sair da estação!
— Meridional, rasts: cento e seis, cento e dezassete, zero oito, zero dois. Triducto, nível af. ag, ac, circuito m, níveis doze, dezasseis; o nível nádir conduz a todas as direcções do lado sul. Nível central: gleeders, local vermelho, expresso branco, a. b e v. Nível ulder, directo, todas as escadas rolantes da terceira para cima… — recitou monocordicamente uma voz feminina.
Tive vontade de arrancar da parede o microfone tão solicitamente inclinado para a minha cara. Dentro de mim, a cada passo, soava a palavra: Idiota! Idiota! ex ex EX ex, repetia um sinal que se erguia, circundado por uma névoa cor de limão. Seria Ex de Exit, saída? Uma saída?
O imenso letreiro dizia exotai.. Uma baforada súbita de ar morno agitou-me as pernas das calças. Dei comigo debaixo do céu. Mas o negrume da noite era mantido a grande distância, como que empurrado para trás pela multitude das luzes. Um imenso restaurante. Mesas cujos tampos brilhavam, com cores diferentes. Acima delas, rostos iluminados de baixo e, por isso, um tanto ou quanto fantasmagóricos, cheios de sombras carregadas. Poltronas baixas, um líquido preto com espuma verde nos copos, lanternas que jorravam pequenas centelhas… não, pirilampos, enxames de pequenas borboletas incandescentes. O caos de luzes extinguia as estrelas. Quando levantei a cabeça viapenas um vazio preto. No entanto, e estranhamente, nesse momento a sua presença cega deu-me coragem. Parei a olhar. Roçou alguém por mim, ao passar, e captei a fragrância de um perfume forte e ao mesmo tempo suave.
