Depois desapareceram e eu levantei-me. Maquinalmente, endireitei a camisola. Não sabia porquê, mas sentia-me estúpido com as mãos vazias. Pela porta aberta entrava ar mais fresco. Voltei-me. A hospedeira estava parada junto da parede divisória, sem lhe tocar com as costas. Tinha no rosto o mesmo sorriso tranquilo, dirigido às filas de lugares vazios que, por si mesmos, começavam a enrolar-se, a dobrar-se como flores carnudas, Uns mais depressa, outros mais devagar. Esse era o único movimento que acompanhava o rugido prolongado e circundante que continuava a jorrar pelas aberturas ovais e recordava o mar. «Não deixes aquilo tocar-me!» De súbito, pareceu-me que no sorriso dela havia algo errado. Disse-lhe, da saída:

— Adeus…

— Entendido.

Não apreendi logo o significado daquela resposta, tão peculiar nos lábios de uma bonita jovem, pois ouvi-a quando estava de costas voltadas, meio saído da porta. Fiz menção de apoiar o pé num degrau, mas não havia degrau nenhum. Entre o casco de metal da nave e a orla da plataforma escancarava-se uma fenda com um metro de largura. Apanhado em desequilíbrio, desprevenido para tal armadilha, dei um salto desajeitado e, em pleno ar, senti um fluxo de força invisível apoderar-se de mim, pareceu-me que vindo de baixo, de tal modo que flutuei através do vácuo e fui suavemente depositado numa superfície branca, que cedeu elasticamente. Durante o salto, devia ter tido no rosto uma expresão nada inteligente, pois vi postos em mim diversos olhares divertidos — ou assim me pareceram. Virei-me rapidamente e caminhei ao longo da plataforma. O foguetão em que chegara repousava numa cavidade profunda, separado da orla das plataformas por um abismo desprotegido. Aproximei-me desse espaço vazio, como quem não quer a coisa, e senti pela segunda vez uma resistência invisível que me impediu de atravessar a fronteira branca. Desejei localizar a fonte dessa força peculiar, mas de súbito, como se acordasse, lembrei-me de uma coisa: estava na Terra.



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