A mulher, desta vez, tinha olhos escuros e cabelos morenos. Mesmo assim, Veronika ficou em dúvida se era a mesma pessoa com quem conversara horas — dias? — antes. — Pode desamarrar meus braços?

A enfermeira levantou os olhos, respondeu com um seco «não», e voltou ao livro.

Estou viva, pensou Veronika. Vai começar tudo de novo. Devo passar algum tempo aqui dentro, até constatarem que sou perfeitamente normal. Depois me darão alta, e eu verei de novo as ruas de Lubljana, sua praça redonda, as pontes, as pessoas que passam pelas ruas indo e voltando do trabalho.

Como as pessoas sempre tendem a ajudar as outras — só para se sentirem melhores do que realmente são — eles me darão o emprego de volta na biblioteca. Com o tempo, voltarei a frequentar os mesmos bares e boates, conversarei com os meus amigos sobre as injustiças e problemas do mundo, irei ao cinema, passearei no lago.

Como escolhi os comprimidos, não estou deformada: continuo jovem, bonita, inteligente, e não terei — como nunca tive — dificuldades em arranjar namorados. Farei amor com eles em suas casas, ou no bosque, terei um certo prazer, mas logo depois do orgasmo a sensação do vazio voltará. Já não teremos muito o que conversar, e tanto ele como eu sabemos disso: chega a hora de dar uma desculpa um para o outro — «está tarde», ou «amanhã tenho que acordar cedo» — e partiremos o mais rápido possível, evitando nos olharmos nos olhos.

Eu volto para o meu quarto alugado no convento. Tento ler um livro, ligo a TV para ver os mesmos programas de sempre, coloco o despertador para acordar exatamente na mesma hora que acordei no dia anterior, repito mecanicamente as tarefas que me são confiadas na biblioteca. Como o sanduiche no jardim em frente ao teatro, sentada no mesmo banco, junto com outras pessoas que também escolhem os mesmos bancos para lanchar, que tem o mesmo olhar vazio, mas fingem estar preocupadas com coisas importantíssimas.



15 из 149