
Depois volto ao trabalho, escuto alguns comentários sobre quem está saindo com quem, quem está sofrendo o que, como tal pessoa chorou por causa do marido — e fico com a sensação que sou privilegiada, sou bonita, tenho um emprego, arranjo o namorado que quiser. Ai volto aos bares no final do dia, e a coisa toda recomeça.
Minha mãe — que deverá estar preocupadissima com minha tentativa de suicídio — vai se recuperar do susto e continuará me perguntando o que vou fazer de minha vida, porque não sou igual as outras pessoas, já que, afinal de contas, as coisas não são tão complicadas como eu penso que são. «Olhe para mim, por exemplo, que estou há anos casada com seu pai, e procurei lhe dar a melhor educação e os melhores exemplos possíveis.»
Um dia eu me canso de ouvi-la sempre repetindo a mesma conversa, e para agrada-la me caso com um homem a quem me obrigo a amar. Eu e ele terminaremos encontrando uma maneira de sonhar juntos com o nosso futuro, a casa de campo, os filhos, o futuro dos nosso filhos. Faremos muito amor no primeiro ano, menos no segundo, e a partir do terceiro ano a gente talvez pense em sexo uma vez a cada quinze dias, e transforme este pensamento em ação apenas uma vez por mês. Pior que isso, a gente quase não conversará. Eu me forçarei a aceitar a situação, e me perguntarei o que há de errado comigo — já que não consigo mais interessa-lo, ele não presta atenção a mim, e vive falando dos seus amigos como se fossem realmente o seu mundo.
Quando o casamento estiver realmente por um fio, eu ficarei grávida. Teremos o filho, passaremos algum tempo mais próximos um do outro, e logo a situação voltará a ser como antes.
