Para sua surpresa, porém, a primeira linha do texto tirou-a de sua passividade natural (os calmantes ainda não tinham dissolvido em seu estômago, mas Veronika já era passiva por natureza), e fez com que, pela primeira vez em sua vida, considerasse como verdadeira uma frase que estava muito em moda entre seus amigos: «nada neste mundo acontece por acaso».

Por que aquela primeira linha, justamente num momento em que havia começado a morrer? Qual a mensagem oculta que tinha diante dos seus olhos, se é que existem mensagens ocultas ao invés de coincidências?.

Embaixo de uma ilustração do tal jogo de computador, o jornalista começava sua matéria perguntando: «Onde é a Eslovénia?»

«Ninguém sabe onde é a Eslovénia» pensou. «Nem isso.»

Mas a Eslovénia mesmo assim existia, e estava lá fora, lá dentro, nas montanhas a sua volta e na praça diante dos seus olhos: a Eslovénia era seu pais.

Deixou a revista de lado, não lhe interessava agora ficar indignada com um mundo que ignorava por completo a existência dos eslovenos; a honra de sua nação não lhe dizia mais respeito. Era hora de ter orgulho de si mesma, saber que fora capaz, finalmente tivera coragem, estava deixando esta vida: que alegria! E estava fazendo isso da maneira com que sempre sonhara — através de comprimidos, que não deixam marcas.

Veronika procurara pelos comprimidos por quase seis meses. Achando que nunca iria consegui-los, chegara a considerar a possibilidade de cortar os pulsos. Mesmo sabendo que ia terminar enchendo o quarto de sangue, deixando as freiras confusas e preocupadas, um suicídio exige que as pessoas pensem primeiro em si mesmas, e depois nos outros. Estava disposta a fazer todo o possível para que sua morte não causasse muito transtorno, mas se cortar os pulsos fosse a única possibilidade, então não havia jeito — e as freiras que limpassem o quarto, e esquecessem logo a história, senão teriam dificuldades de aluga-lo de novo. Afinal de contas, mesmo no final do século XX, as pessoas ainda acreditavam em fantasmas.



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