
— Em quanto tempo meu coração vai parar? — interrompeu Veronika.
— Cinco dias, uma semana no máximo.
Veronika se deu conta que, por detrás da aparência e do comportamento profissional, por detrás do ar de preocupação, aquele rapaz estava tendo um imenso prazer no que dizia. Como se ela merecesse o castigo, e servisse de exemplo a todos os outros.
Durante toda a sua vida, Veronika percebera que um imenso grupo de pessoas que conhecia comentavam os horrores da vida alheia como se estivessem muito preocupados em ajudar — mas na verdade se compraziam com o sofrimento dos outros, porque isto os fazia crer que eram felizes, a vida tinha sido generosa com eles. Ela detestava este tipo de gente: não ia dar aquele rapaz
nenhuma chance de se aproveitar do seu estado, para ocultar as suas próprias frustrações.
Manteve os olhos fixos no dele. E sorriu.
— Então eu não falhei.
— Não — foi a resposta. Mas o seu prazer em dar noticias trágicas havia desaparecido.
Durante a noite, porém, começou a sentir medo. Uma coisa era a ação rápida dos comprimidos, outra era ficar esperando a morte por cinco dias, uma semana — depois de já se ter vivido tudo que era possível.
Passara a sua vida esperando sempre alguma coisa: o pai voltar do trabalho, a carta do namorado que não chegava, os exames do final do ano, o trem, o ônibus, o telefonema, o dia das férias, o final das férias. Agora precisava esperar a morte, que vinha com data marcada.
«Isso só podia acontecer comigo. Normalmente as pessoas morrem exatamente no dia em que acham que não vão morrer.»
Tinha que sair dali, e arranjar novos comprimidos. Se não conseguisse, e a única solução fosse jogar-se do alto de prédio em Lubljana, ela faria isso: tentara poupar os seus pais de sofrimento extra, mas agora não havia mais remédio.
