«Quando os habitantes daquele reino tomaram

conhecimento dos decretos, ficaram convencidos de que o soberano enlouquecera, e agora estava escrevendo coisas sem sentido. Aos gritos, foram até o castelo e exigiram que renunciasse.

«Desesperado, o rei prontificou-se a deixar o trono, mas a rainha o impediu, dizendo: «vamos agora até a fonte, e beberemos também. Assim, ficaremos iguais a eles.»

«E assim foi feito: o rei e a rainha beberam a agua da loucura, e começaram imediatamente a dizer coisas sem sentido. Na mesma hora, os seus súditos se arrependeram: agora que o rei estava mostrando tanta sabedoria, por que não deixa-lo governando o pais?

«O pais continuou em calma, embora seus habitantes se comportassem de maneira muito diferente de seus vizinhos. E o rei pode governar até o final dos seus dias.»

Veronika riu.

— Você não parece louca — disse.

— Mas sou, embora esteja sendo curada, porque o meu caso é simples: basta recolocar no organismo uma determinada substância quimica. Entretanto, espero que esta substancia resolva apenas o meu problema de depressão crónica; quero continuar louca, vivendo minha vida da maneira que sonho, e não da maneira que os outros desejam. Sabe o que existe lá fora, além dos muros de Villete?

— Gente que bebeu do mesmo poço.

— Exatamente — disse Zedka. — Acham que são normais, porque todos fazem a mesma coisa. Vou fingir que também bebi daquela água.

— Pois eu bebi, e é este, justamente, o meu problema. Nunca tive depressão, nem grandes alegrias, ou tristezas que durassem muito. Meus problemas são iguais aos de todo mundo.

Zedka ficou algum tempo em silencio.

— Você vai morrer, nos disseram.

Veronika hesitou um instante: podia confiar naquela estranha? Mas precisava arriscar.



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