
— Só daqui há cinco, seis dias. Fico pensando se existe um meio de morrer antes. Se você, ou alguém aqui dentro conseguisse arranjar novos comprimidos, tenho certeza de que meu coração não aguentaria desta vez. Entenda o quanto estou sofrendo por ter que ficar esperando a morte, e me ajude.
Antes que Zedka pudesse responder, a enfermeira apareceu com uma injeção.
— Posso aplica-la eu mesma — disse. — Mas, dependendo de sua vontade, posso pedir aos guardas lá fora que me ajudem.
— Não gaste sua energia a toa — disse Zedka para Veronika. — Poupe suas forças, se quiser conseguir o que me pede.
Veronika levantou-se, voltou a sua cama, e deixou que a enfermeira cumprisse sua tarefa.
Foi seu primeiro dia normal num asilo de loucos. Saiu da enfermaria, tomou café no grande refeitório onde homens e mulheres comiam juntos. Reparou que, ao contrário do que mostravam nos filmes — escândalos, gritarias, pessoas fazendo gestos demenciais — tudo parecia envolto numa aura de silencio opressivo; parecia que ninguém desejava repartir seu mundo interior com estranhos.
Depois do café (razoável , não se podia culpar as refeições pela péssima fama de Villete) — sairam todos para um banho de sol. Na verdade, não havia sol algum — a temperatura estava abaixo de zero, e o jardim encontrava-se coberto de neve.
— Não estou aqui para conservar minha vida, mas para perde-la — disse Veronika a um dos enfermeiros.
— Mesmo assim, precisa sair para o banho de sol.
— Vocês é que são são loucos: não há sol!
— Mas há luz, e ela ajuda a acalmar os internos. Infelizmente nosso inverno dura muito; se não fosse assim, teríamos menos trabalho.
Era inútil discutir: saiu, caminhou um pouco, olhando tudo a sua volta, e procurando disfarçadamente uma maneira de fugir. O muro era alto, como exigiam os construtores de quartéis antigos, mas as guaritas para sentinelas estavam desertas.
