— Você interrompeu sua frase. Você estava falando do meu pedido.

— Tem um grupo aqui dentro. São homens e mulheres que já podiam ter alta, estar em casa — mas não querem sair. As razões para isto são muitas: Villete não é tão mal como dizem, embora esteja longe de ser um hotel de cinco estrelas. Aqui dentro, todos podem dizer o que pensam, fazer o que desejam, sem ouvir qualquer tipo de critica: afinal de contas, estão em um hospício. Então, na hora das inspeções do governo, estes homens e mulheres comportam-se como se estivessem num grau de insanidade perigosa, já que alguns deles estão aqui às custas do Estado. Os médicos sabem disso, mas parece que existe uma ordem dos donos, deixando que esta situação permaneça como está — já que existem mais vagas do que doentes.

— Eles podem arranjar os comprimidos?

— Procure entrar em contacto com eles; chamam seu grupo de A Fraternidade.

Zedka apontou para uma mulher com cabelos brancos, que conversava animadamente com outras mulheres mais jovens.

— Seu nome é Mari, e ela é da Fraternidade. Pergunte a ela.

Veronika começou a andar na direção de Mari, mas Zedka a interrompeu:

— Agora não: ela está se divertindo. Não irá interromper o que lhe dá prazer, só para ser simpática com uma estranha.Se ela reagir mal, você nunca mais você terá uma chance de aproximar-se. Os loucos sempre acreditam na primeira impressão.

Veronika riu com a entonação que Zedka dera para a palavra loucos. Mas ficou inquieta, porque aquilo tudo estava parecendo normal, bom demais. Depois de tantos anos indo do trabalho para o bar, do bar para a cama de um namorado, da cama para o quarto, do quarto para a casa da mãe — agora ela estava vivendo uma experiência com a qual nunca sonhara: o asilo, a loucura, o hospício. Onde as pessoas não sentiam vergonha de confessar-se loucas. Onde ninguém interrompia o que gostava, só para ser simpático com os outros.



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