
Antes dessa primeira recordação, nada. Um dia talvez esse nada retornasse, mas tratava-se de uma idéia demasiado remota para que suas sensações fossem atingidas.
Mais uma vez, Alvin voltou a mente para o mistério de seu nascimento. Não lhe parecia estranho que pudesse ter sido criado, num determinado instante, pelos poderes e forças que materializavam todos os objetos da vida diária. Não, o mistério não residia aí. O enigma que nunca tinha sido capaz de resolver, nem ninguém lhe havia explicado, estava em seu caráter de único.
Único… palavra estranha, triste. Coisa também estranha e triste para alguém ser. Quando essa palavra lhe era aplicada (e isso acontecera várias vezes, quando pensavam que não estivesse ouvindo), ela parecia encerrar insinuações funestas, que ameaçavam alguma coisa mais que sua própria felicidade.
Seus pais, o tutor, todos quantos ele conhecia, haviam tentado protegê-lo da verdade, como se estivessem ansiosos por preservar a inocência de sua longa infância. A simulação duraria pouco, porém. Daí a alguns dias ele se tornaria cidadão pleno de Diaspar, e nada do que desejasse saber lhe poderia ser ocultado.
Por exemplo, por que não se saía bem nas Sagas? Das milhares formas de recreação da cidade, essa era a mais popular. Quando alguém entrava numa Saga, não era simplesmente como um observador passivo, como nas diversões rudimentares das épocas primitivas, que Alvin experimentara às vezes, era um participante ativo e possuía (ou parecia possuir) livre-arbítrio. Os fatos e as cenas que constituíam a matéria-prima das aventuras podiam ter sido preparados de antemão por artistas desconhecidos, mas havia ampla flexibilidade, de modo a permitir grande variação. Podia-se penetrar nesses mundos fantasmagóricos com os amigos, procurar emoções que não existiam em Diaspar — e enquanto durasse o sonho não havia maneira de distingui-lo da realidade. Na verdade, quem poderia ter certeza de que a própria Diaspar não fosse um sonho?
