
Alvin sabia que não adiantava argumentar. Ali estava a barreira que o separava do povo de seu mundo, e que poderia condená-lo a uma vida de frustração. Ele estava sempre querendo sair, em realidade ou em sonho. Mas para toda a população de Diaspar, o «lá fora» era um pesadelo que não podiam encarar. Jamais falavam sobre isso, se fosse possível evitar o assunto. Sair era coisa imunda, má. Nem mesmo Jeserac, seu tutor, lhe dizia por quê…
Alystra ainda o observava, perplexa mas com uma expressão de ternura.
— Você é infeliz, Alvin — disse. — Ninguém deve ser infeliz em Diaspar. Deixe-me ir falar com você.
Alvin sacudiu a cabeça com rispidez. Sabia onde aquilo o levaria, e por ora queria apenas ficar sozinho. Duplamente desapontada, Alystra desapareceu de vista.
Uma cidade com dez milhões de seres humanos, pensou Alvin, e nem uma só pessoa com quem ele pudesse abrir-se. Eriston e Etania gostavam dele à sua maneira, mas agora, quando a custódia chegava ao fim, sentiam-se satisfeitos por poder deixar que ele moldasse os próprios divertimentos e a própria vida. Nos últimos cinco anos, quando as divergências de Alvin com os padrões convencionais se tornaram óbvias, ele sentira, mais de uma vez, o ressentimento dos pais. Esse ressentimento não era com ele — se fosse, isso seria pelo menos uma coisa que poderia enfrentar —, mas com o completo azar que havia feito com que fossem escolhidos, entre os milhões de habitantes da cidade, como seus guardiões quando Alvin saiu, vinte anos antes, da Casa de Criação.
Vinte anos. Ele se lembrava do seu primeiro momento e das primeiras palavras que escutara:
— Seja bem-vindo, Alvin. Eu sou Eriston, designado como seu pai. E esta é Etania, sua mãe. — Na época, essas palavras nada significavam, mas a mente as gravara com total exatidão. Alvin lembrava-se de ter olhado de alto a baixo para seu próprio corpo, agora três ou cinco dedos mais alto, mas que quase nada se modificara desde o momento do nascimento. Ele havia chegado ao mundo quase inteiramente desenvolvido, e pouco teria mudado desde então, exceto no peso, quando chegasse o tempo de abandoná-lo, dentro de uns mil anos.
