
Minha mãe, ao contrário, acalentava grandes projectos para o meu futuro, e eu depressa compreendi que esses projectos excluíam por completo qualquer tipo de vida parecido com o que eu própria desejava. O que ela pensava, em resumo, era que a minha beleza me permitia aspirar a todos os géneros de êxitos, mas de nenhum modo a tornar-me, como as outras raparigas, uma mulher casada, vivendo para o marido e para os filhos. Sendo nós extremamente pobres, a minha beleza parecia-lhe o único património de que dispúnhamos, e pertencia, portanto, tanto a mim como a ela, visto ter sido dela que eu a recebera ao deitar-me ao mundo. E esta riqueza devia servir-me para melhoria da nossa situação, sem ligar importância ao que podiam ser as convenções sociais. No fundo isto não passava de uma completa falta de imaginação. Numa situação como a nossa, a ideia de pôr a minha beleza a render era perfeitamente intuitiva. Minha mãe adoptou-a, agarrou-se a ela e nunca mais a abandonou.
A verdade é que eu só muito vagamente compreendia os projectos da minha mãe.
