
Estas palavras, apesar da tristeza que me causavam, foram durante muito tempo perfeitamente obscuras para mim. Só muito mais tarde lhes consegui apreender o sentido exacto. O que elas realmente significavam era: “Sem ti nunca me teria casado e a esta hora tinha automóvel!” Era perfeitamente compreensível que, nutrindo ideias destas acerca da sua própria vida, minha mãe não concebesse para mim, muito mais bonita do que ela fora, o caminho dos mesmos erros, e portanto um destino semelhante.
Hoje, que me é possível ver as coisas em perspectiva, não tenho coragem de a condenar. Para minha mãe a palavra família significava miséria, escravidão e algumas pequenas alegrias rapidamente terminadas com a morte do meu pai. Era natural, senão justo, que considerasse a vida honesta e familiar como um caminho seguro para a desgraça e estivesse alerta a não me deixar tentar pelas miragens que a tinham atraído.
A sua maneira, minha mãe gostava muito de mim. Por exemplo: logo que eu comecei a frequentar os ateliers, fez-me dois vestidos: um fato inteiro e outro de saia e casaco. Para falar verdade, eu teria preferido roupa interior, porque tinha vergonha, sempre que era forçada a despir-me, da minha roupa grosseira, usada, e até muitas vezes pouco limpa.
