Mas mesmo mais tarde, quando adquiri experiência da vida, nunca tive coragem para lhe perguntar como, incompreensivelmente, tendo ela essas ideias, tinha acedido a casar com um pobre-diabo e cair na miséria. Muitas das suas alusões tinham-me feito compreender que a verdadeira culpada deste estado de coisas era eu, visto que o meu nascimento não tinha sido previsto nem desejado. Por outras palavras, o meu nascimento fora ocasional, e minha mãe, sem coragem de me impedir de nascer (como deveria ter feito, segundo dizia muitas vezes), não tinha tido outro remédio senão casar-se com meu pai e aceitar todas as consequéncias desastrosas de um casamento semelhante. Por isso, com frequéncia, referindo-se ao meu nascimento, afirmava: “Tu foste a minha ruína!”

Estas palavras, apesar da tristeza que me causavam, foram durante muito tempo perfeitamente obscuras para mim. Só muito mais tarde lhes consegui apreender o sentido exacto. O que elas realmente significavam era: “Sem ti nunca me teria casado e a esta hora tinha automóvel!” Era perfeitamente compreensível que, nutrindo ideias destas acerca da sua própria vida, minha mãe não concebesse para mim, muito mais bonita do que ela fora, o caminho dos mesmos erros, e portanto um destino semelhante.

Hoje, que me é possível ver as coisas em perspectiva, não tenho coragem de a condenar. Para minha mãe a palavra família significava miséria, escravidão e algumas pequenas alegrias rapidamente terminadas com a morte do meu pai. Era natural, senão justo, que considerasse a vida honesta e familiar como um caminho seguro para a desgraça e estivesse alerta a não me deixar tentar pelas miragens que a tinham atraído.

A sua maneira, minha mãe gostava muito de mim. Por exemplo: logo que eu comecei a frequentar os ateliers, fez-me dois vestidos: um fato inteiro e outro de saia e casaco. Para falar verdade, eu teria preferido roupa interior, porque tinha vergonha, sempre que era forçada a despir-me, da minha roupa grosseira, usada, e até muitas vezes pouco limpa.



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