
Disse tudo isto a minha mãe, porque tinha a certeza de que a nossa ida ao hotel seria um fiasco e queria evitar essa humilhação. Mas minha mãe desatou a gritar que eu era infinitamente mais bela do que todas as desgraçadas que se mostravam nos palcos, que o director daria graças a Deus pela sorte de poder incluir-me no seu grupo de artistas e outras coisas semelhantes. Minha mãe nada compreendia da beleza moderna; acreditava com inteira boa fé que quanto mais opulentos forem os seios e as ancas de uma mulher mais bela essa mulher será.
O director esperava-nos numa sala que dava para a antecâmara de que já falei; suponho que do sítio onde estava podia vigiar, pela porta aberta, o trabalho das bailarinas. Estava sentado numa poltrona ao lado da cama por fazer, e em cima desta tinha ainda a bandeja do pequeno-almoço, que acabara de tomar. Era velho e gordo, mas vestia-se com exagerado requinte e com uma elegância vistosa, que naquele quarto pobre e desleixado, mal iluminado e com a cama desfeita, assumia um aspecto singular e anacrónico.
