O seu rosto era corado, mas desconfiei que o pintava, porque debaixo do tom rosado das faces podiam ver-se como que placas irregulares de um moreno doentio. Usava monóculo, movia constantemente os lábios assoprando e descobrindo os dentes de uma brancura tão excessiva que se via imediatamente serem postiços. Estava sentado com o enorme ventre caindo-lhe para o meio das pernas; quando acabou de comer disse-me numa voz contrariada e quase gemebunda:

— Vamos, mostra-me as pernas!

— Mostra as pernas ao senhor director — repetiu a minha mãe com ansiedade.

Desde que trabalhava nos ateliers já não tinha vergonha… Mostrei as pernas conservando-me imóvel, arregaçando a saia com as duas mãos. As minhas pernas são verdadeiramente belas: longas, cheias e lisas, mas, um pouco acima dos joelhos, as coxas tomam um desenvolvimento insólito: são redondas e fortes e não cessam de alargar até ao ponto mais saliente das ancas.

O director abanou a cabeça e perguntou:

— Que idade tens tu?

— Completou dezoito anos em Agosto — respondeu prontamente minha mãe.

O director não respondeu. Levantou-se e dirigiu-se para um fonógrafo que se encontrava em cima da mesa, no meio de papéis e peças de roupa. Deu volta à manivela, escolheu um disco com cuidado e colocou-o no prato. Depois disse-me :

— Agora tenta dançar ao som desta música, mas mantendo a saia levantada.

— Ela só teve duas ou três lições de dança — explicou minha mãe.

Sabia perfeitamente que essa prova era decisiva, e conhecendo a minha falta de habilidade temia o resultado do exame.

Mas o director, depois de ter feito um gesto pedindo silêncio, fez rodar o disco e, também por gestos, convidou-me a dançar.

Comecei mantendo a saia levantada, como me tinha dito para fazer.



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